4. BRASIL 19.6.13

1. A JOGATINA DE CACHOEIRA NO PARA
2. MARMELADA MINEIRA
3. O HOMEM QUE SE RECUSOU A MATAR O MARIDO DE DILMA
4. DO SONHO AO VANDALISMO E  BRUTALIDADE

1. A JOGATINA DE CACHOEIRA NO PARA
Casas de bingos ilegais, comandadas pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, continuam a funcionar nas cidades vizinhas a Braslia. A polcia confirma: "Ele nunca parou"
Izabelle Torres

Em uma rua da periferia de Valparaso (GO), distante 30 quilmetros da capital do Pas, uma casa de pouco mais de 100 metros quadrados, com portas e janelas lacradas por esquadrias de ferro, passa despercebida em meio a residncias simples e  poeira que se acumula pela falta de asfalto. Na porta, um homem sentado em um banco de plstico analisa o movimento e d uma batida no porto velho como sinal de permisso para abri-lo. O local  um ponto de jogatina e de bingos ilegais que continua desafiando a polcia e colocando em xeque a estrutura do Estado. L dentro, 22 mquinas de caa-nqueis estavam  disposio dos 13 jogadores que se enfileiravam em uma sala com pouca luz e um silncio opressor na noite da quarta-feira 12. Os cinco funcionrios que trabalhavam na rea interna conversavam discretamente sobre uma possvel mudana de endereo e combinavam de telefonar para os clientes mais cativos informando o novo destino, que seria o terceiro em cinco meses. Delegados envolvidos no combate aos jogos ilegais so unnimes em afirmar que casas como essa ainda so comandadas pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Condenado a 39 anos e oito meses de priso por corrupo ativa, peculato, violao de sigilo e formao de quadrilha, alm de indicado como comandante da mfia dos caa-nqueis na regio Centro-Oeste, Cachoeira  considerado por policiais um contraventor na ativa, que continua a acumular poder e a contar com as ramificaes polticas do esquema de jogos ilegais montado por ele.

EM PLENA ATIVIDADE - Condenado a 39 anos e oito meses de priso, Cachoeira opera por meio do tesoureiro Jos Olmpio Queiroga (leia documento) e do irmo, Paulo Cachoeira

De acordo com o delegado Alexandre Loureno, da Delegacia de Combate ao Crime Organizado de Gois, todas as investigaes sobre a propriedade das casas de bingo fechadas nos ltimos meses levaram aos mesmos contraventores: os integrantes da famlia de Jos Olmpio Queiroga. Queiroga  apontado na Operao Monte Carlo, da Polcia Federal, como tesoureiro de Cachoeira e responsvel por viabilizar a abertura dos locais utilizados pelo grupo para explorar o jogo. Posso dizer que essas casas que continuam operando so comandadas pelo grupo do Cachoeira. Nossas investigaes levam sempre s mesmas pessoas e  pirmide da organizao denunciada durante a Operao Monte Carlo. A verdade  que Cachoeira nunca parou. Pior: ser difcil par-lo definitivamente, lamenta o delegado, que tenta criar uma fora-tarefa para possibilitar uma ao conjunta de combate aos jogos ilegais.

No ltimo ms, seis pessoas avisaram sobre o funcionamento de casas de jogos ilegais espalhadas em diversas cidades do entorno de Braslia. ISTO encontrou uma delas em Formosa (GO), distante 100 quilmetros da capital. Com uma estrutura bem mais modesta do que a casa que abrigava as mquinas em Valparaso, a segurana  menos reforada e a clientela  composta basicamente por idosos. H trs mulheres se revezando no atendimento cordial aos clientes e apenas um homem com a responsabilidade de interrogar visitantes. Esses funcionrios que atendem raramente encontram os verdadeiros chefes. Muitas vezes, no sabem mesmo quem eles so. Por isso, documentar quem est no topo da pirmide  o grande desafio, diz o delegado-adjunto da Delegacia de Represso ao Crime Organizado do Distrito Federal, Fernando Cocito. Ele comemora o fato de 45 casas de bingos terem sido fechadas desde fevereiro do ano passado, quando Cachoeira foi detido pela primeira vez.

A estrutura do esquema de jogos ilegais indica a existncia de novos personagens. Um deles  Paulinho Cachoeira, irmo de Carlinhos, que tenta alar voo solo na contraveno. Pelo menos trs casas fechadas pela polcia nos ltimos cinco meses apontavam que ele era o comandante dos grupos. Sempre que  chamado a depor, Paulinho diz que monta a prpria estrutura e que no depende do irmo. Meu cliente est recolhido com a famlia, no chefia nada disso. Ele no comanda nada, diz o advogado de Cachoeira, Nabor Bulhes. Os policiais, porm, no consideram verdadeira a verso, uma vez que manter e reestruturar os grupos depois de cada ofensiva  considerado um trabalho que exige experincia, habilidade e, claro, muita influncia poltica, requisitos que Cachoeira preenche.


2. MARMELADA MINEIRA
Crimes do mensalo tucano podem prescrever em funo das decises burocrticas incomuns que a juza do Tribunal de Justia de Minas Gerais impe ao processo envolvendo integrantes do PSDB 
Josie Jeronimo

H dois anos e meio, a Justia de Minas Gerais recebeu a denncia do chamado mensalo mineiro, esquema de desvio de recursos pblicos que abasteceu o caixa de campanha de polticos do PSDB local e, tal qual o do PT, tambm era operado pelo publicitrio Marcos Valrio. De l para c, o processo transcorre em ritmo lento e os crimes imputados aos principais envolvidos caminham para a prescrio.  uma situao bem diferente da que se verificou no julgamento contra a cpula petista, que j se encontra em fase de apresentao de recursos no STF. No processo mineiro, nem todas as testemunhas foram ouvidas e muitas no foram sequer intimadas. Dos 130 mandados expedidos at agora, apenas 75 chegaram s mos dos destinatrios. Contrariando o trmite usualmente adotado pela Justia, testemunhas que moram em oito cidades vizinhas a Belo Horizonte esto sendo ouvidas por carta precatria. Depoentes do municpio de Nova Lima, a 20 quilmetros da capital, por exemplo, foram acionados por correspondncia, em vez de comparecer a audincias no Frum Lafayette, no bairro Barro Preto, regio central de Belo Horizonte.

OS RUS AGRADECEM - Esquema de desvio de recursos pblicos que abasteceu o caixa de campanha de polticos do PSDB local, operado por Marcos Valrio, s ser julgado depois das eleies de 2014

Os advogados que atuam no processo atribuem a morosidade  atuao da titular da 9 Vara Criminal do Tribunal de Justia de Minas Gerais, a juza Neide da Silva Martins. Utilizando mtodos ultrapassados, a magistrada imprime ao julgamento do mensalo tucano uma dinmica burocrtica. Considerada rspida no trato com advogados, Neide no aceita conversas de bastidor, chamadas ironicamente de embargos auriculares. Mas cedeu  presso dos defensores e permitiu que arrolassem oito testemunhas por fato contido na denncia do Ministrio Pblico, em vez de oito por ru, como ocorre normalmente. Com isso, o rol de depoentes ultrapassou a marca de 100 pessoas, entre eles uma testemunha que mora nos Estados Unidos.

Sem pressa aparente para concluir o processo, Neide decidiu reservar apenas um dia da semana para analisar o caso. Nos outros, debrua-se sobre outros processos sob sua batuta. Para tornar o trmite ainda mais lento, audincias de instruo so escassas e costumam ser desmarcadas no decorrer da tramitao. Na ltima sesso, do dia 7 de junho, a juza estava afnica e cancelou a reunio. Formada em letras antes de cursar direito, Neide tambm aplica aos advogados do mensalo mineiro uma cartilha de padronizao de texto, dando margem para os defensores ganharem mais prazo ao reformar peas fora das normas de estilo ditadas pela magistrada.

A burocrtica conduo do mensalo mineiro pela magistrada j produziu at folclores. No ano passado, Neide suspeitou que o advogado Leandro Bemfica, representante de Eduardo Guedes  ex-secretrio do governo Eduardo Azeredo e responsvel pela produo do programa nacional do PSDB , estava piscando para uma testemunha. O objetivo seria o de conduzir o contedo do depoimento. A juza arguiu o advogado, que saiu-se com esta: Eu pisquei porque estamos apaixonados, justificou. A juza aceitou a explicao esdrxula e seguiu com o depoimento. No esquema mineiro, Guedes tinha atuao semelhante  de Luiz Gushiken, ex-ministro absolvido no mensalo.  ISTO, o advogado justificou a provocao atribuindo a histria a um incidente de audincia. Ele afirma que a demora no julgamento prejudica seu cliente, profissional da rea de comunicao. Ns temos o maior interesse que seja julgado logo, porque meu cliente est sofrendo danos profissionais, afirmou. Durante a semana, a ISTO procurou a juza por meio da assessoria do TJMG. Ela informou que no poderia falar sobre o processo, pois a ao ainda est em curso, e no respondeu s perguntas enviadas pela reportagem.

A lentido do processo do mensalo mineiro se tornou cmoda para os advogados de defesa, pois parte dos rus pode ter a pena prescrita antes mesmo da sentena. Dependendo do tipo de pena, da idade dos rus e da necessidade de novas diligncias provocadas por depoimentos de testemunhas, a possibilidade de prescrio de punio no mensalo mineiro  real. A expectativa  de que o processo s seja concludo aps as eleies de 2014. Com base na denncia do Ministrio Pblico, o criminalista Guilherme San Juan Arajo analisou, a pedido da ISTO, a situao dos 13 rus. San Juan verificou que, da maneira como transcorre o processo, dificilmente Cludio Mouro  que no esquema petista poderia ser comparado ao tesoureiro Delbio Soares  cumprir pena. Como Mouro completar 70 anos em abril de 2014, automaticamente o prazo de prescrio  de crimes como peculato e lavagem de dinheiro   reduzido  metade. Assim, se Mouro for condenado depois dessa data, os crimes imputados a ele j estaro prescritos. Isso j ocorreu com Walfrido Mares Guia, que fez 70 anos em 2013. Outros rus, como Eduardo Brando, tambm podem se beneficiar do calendrio, se, em recurso, a sentena for reformada. Os rus agradecem.


3. O HOMEM QUE SE RECUSOU A MATAR O MARIDO DE DILMA
A histria do motorista de uma kombi que, em agosto de 1970, desacatou uma ordem dos agentes do DOPS e se negou a atropelar Carlos Paixo de Arajo, ex-marido da presidenta e ento dirigente do grupo de esquerda VAR-Palmares
Pedro Marcondes de Moura

No dia 12 de agosto de 1970, o advogado Carlos Franklin Paixo de Arajo imaginou um plano para pr fim ao suplcio da tortura a qual era submetido por agentes do Departamento de Ordem Poltica e Social (DOPS) paulista. Ex-marido de Dilma Rousseff e seu companheiro de militncia no grupo de esquerda Vanguarda Armada Revolucionria Palmares (VAR-Palmares), Arajo inventou para seus algozes que tinha um encontro marcado no dia seguinte com o legendrio Carlos Lamarca, o militante mais procurado pela represso militar. O ponto supostamente aconteceria na rua Cllia, no bairro paulistano da Lapa. Com um fluxo intenso de nibus e caminhes, a via lhe parecia um endereo adequado para tentar o suicdio, atirando-se contra um veculo de grande porte. Levado at l, Arajo titubeou por um momento e se jogou embaixo de uma Kombi verde. Sofreu ferimentos nas pernas e na cabea e acabou levado para o Hospital das Clnicas, em Pinheiros. At a ltima semana, Carlos Arajo no sabia que quem guiava aquele carro era Darcy da Rocha Camargo. Muito menos tinha conhecimento de que o motorista da Kombi, hoje aposentado, 79 anos, havia salvado a sua vida, recusando-se a cumprir a ordem de um dos agentes do DOPS que conduziam a operao: D a r e termine o servio para ns, comandou o policial. Darcy respondeu que no queria matar ningum.

O REENCONTRO - O motorista da kombi Darcy Camargo (acima) e Carlos Paixo Arajo conversaram por telefone, na quarta-feira 12

Quarenta e dois anos depois de terem os destinos entrelaados pela Ditadura Militar, Carlos Arajo e Darcy da Rocha se falaram pela primeira vez, na quarta-feira 12, por telefone. A conversa ocorreu depois de o aposentado ler uma entrevista na ISTO, no ano passado, na qual o ex-marido de Dilma revelava detalhes daquele incidente. O motorista resolveu, enfim, entrar em contato com o atropelado. No dilogo de trs minutos e meio trocaram poucas palavras. Darcy no conseguia conter a emoo. Ao ouvir a voz do sujeito que saiu correndo e se atirou embaixo da Kombi guiada por ele, disse: Fiquei me perguntando naquela hora (do incidente), ser que eu matei o homem?. Em meio a risos constrangidos, Arajo respondeu: Eu que devo explicaes. Imagina um sujeito se jogando como um louco embaixo do carro do senhor. Ao final da ligao, ambos ficaram de combinar um encontro, desta vez, pessoalmente. Eu quero contar em detalhes o que aconteceu e dar um abrao nele, disse Arajo.

Avesso  poltica, do tipo que votou na extinta Arena, base poltica da ditadura, e, anos depois, no PT, Darcy da Rocha teve seu primeiro e nico contato direto com o regime militar no dia em que dirigiu a Kombi. Motorista concursado da Faculdade de Cincias Mdicas e Biolgicas de Botucatu (FCMBB), ele seguia normalmente a escala de trabalho que o mandava fazer o percurso de aproximadamente 250 quilmetros entre o municpio da regio centro-oeste paulista e a capital do Estado. Acompanhado de outros trs colegas, saiu ainda de madrugada para levar documentos e recolher materiais. No entanto, por volta das nove horas da manh, foi literalmente atropelado pela realidade daqueles anos de chumbo. O homem (Arajo) surgiu de uma hora para outra em direo ao carro. No deu nem tempo de parar. A sorte  que eu estava devagar, conta. Parecia que queria se matar, comenta.

ANOS DE CHUMBO - Ex-marido, companheiro de militncia poltica e pai da filha da presidenta Dilma Rousseff, o advogado Carlos Arajo depe, em 1970, acusado de subverso 

Abreviar a vida era mesmo a ideia inicial do dirigente do grupo de esquerda, mas a Kombi acabou sendo uma espcie de plano alternativo em meio ao desespero. Carlos Arajo havia sido preso um dia antes cerca de 7h30 da manh perto do estdio do Palmeiras. Caiu nas garras da equipe do truculento delegado do DOPS Srgio Paranhos Fleury quando se dirigia ao encontro de um colega de outra organizao. As sesses de tortura comearam ainda na viatura e se estenderam por todo o dia nas dependncias do rgo de represso. Entre outras tcnicas, o ex-marido da presidenta Dilma Rousseff foi submetido a choques. Eu morava com um colega que estava viajando e s voltava em trs dias. Precisava de tempo para ele no ser pego tambm, explica. Ao ver que no conseguiria passar por aquelas sesses sem dar informaes sobre companheiros, preferiu se suicidar. Me matar era a nica coisa digna fazer, relata. Na hora, eu vacilei. Resolvi me atirar embaixo de um carro, talvez no morresse e ficasse s bastante machucado para ter de ir ao hospital, recorda.

A escolha desesperada de Carlos Arajo coincide com os relatos de outros ocupantes da Kombi ouvidos por ISTO. No mesmo momento em que ele se atirou em direo ao veculo com um grito de desespero, havia nibus tanto na frente como atrs do carro na movimentada via. Depois do incidente, alis, foi uma questo de segundos at que agentes do DOPS se aproximassem, ordenando que ningum descesse do carro. Dois deles apreenderam documentos de parte dos integrantes do veculo, outro sugeriu a Darcy que matasse Arajo. O no lacnico, de quem temia aqueles guardas, mas considerava ainda mais inadmissvel matar um ser humano, foi o suficiente para que os policiais se fizessem de desentendidos e jogassem Arajo ferido dentro de uma viatura. Pegaram ele pelas pernas e arremessaram dentro da viatura, como quem joga um saco de batata, conta Darcy. Fiquei pensando se tinha matado o homem.

INFORME DO DOPS - Documento de 13 de agosto de 1970 relata que Arajo "tentou suicidar-se"

O alvio, porm, s veio ao chegar s dependncias do DOPS para buscar os documentos apreendidos. Ali me falaram que ele tinha quebrado as duas pernas, mas estava bem, recorda. Foi l tambm que soube que se tratava de um advogado, preso como terrorista. Em meio s informaes, gravou o Paixo do sobrenome do homem. Graas a esta informao, Darcy pde acompanhar de longe a trajetria daquele personagem que entrou por acaso em sua vida. Em uma reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, de outubro de 1970, ele viu, por exemplo, o rosto de Arajo pela primeira vez. A foto estava estampada em uma pgina da publicao que relatava o desmantelamento do brao paulista do grupo esquerdista VAR-Palmares.

Por causa do acidente com a Kombi e da recusa do motorista Darcy em dar a r, o militante Carlos Arajo conseguiu escapar daquilo que mais temia: dar informaes que pudessem colocar em perigo seus companheiros de militncia. Encaminhado para o Hospital das Clnicas e depois levado ao Hospital Militar, ele contou com a proteo de freiras, que fizeram um escndalo quando tentaram tortur-lo ainda nos primeiros dias de internao. Depois, como diz, com o passar do tempo j no era um preso to interessante para os agentes da represso. Nem por isso, porm, passou ileso a outras amostras das truculncias do regime ditatorial brasileiro. Condenado, cumpriu cerca de quatro anos de priso. No perodo de crcere oficializou o relacionamento com a agora presidenta Dilma Rousseff. O romance tinha comeado ainda na clandestinidade  antes de ambos serem presos. Com a redemocratizao, elegeu-se trs vezes deputado estadual pelo PDT gacho. Hoje, aos 75 anos  av, advoga, milita politicamente e exerce a distncia uma posio de conselheiro da ex-mulher.


4. DO SONHO AO VANDALISMO E  BRUTALIDADE
Manifestantes de movimentos sociais voltam s ruas das grandes capitais e so reprimidos com uma truculncia injustificvel e desproporcional, que no  vista desde os tempos da ditadura
por Paulo Moreira Leite 

PRAA DE GUERRA - Na quinta-feira 13, PM cerca manifestantes na rua da Consolao, em So Paulo, que protestavam pacificamente e usa balas de borracha e bombas de gs lacrimogneo

Num pas onde  frequente ouvir-se a queixa de que a sociedade sofre de profunda apatia, mostrando-se incapaz de mobilizar-se para defender seus interesses e encarar seus problemas de frente, a mobilizao social de uma massa de estudantes e jovens trabalhadores de So Paulo deveria ser saudada como um exemplo de cidadania. Aps quatro dias de protestos, contudo, surgiu em So Paulo uma situao hostil, assustadora e perigosa. Incapaz de atuar de forma preventiva, controlando as manifestaes com mtodos civilizados e fazendo uso consciente e responsvel da fora quando necessrio, na ltima quinta-feira 13 a Polcia Militar de So Paulo retornou aos piores momentos de seu passado, quanto reprimia a populao sob o regime militar para acuar e atacar militantes. Em meio  pancadaria, ocorreram 325 prises e 105 pessoas ficaram feridas. Manifestantes foram alvejados com balas de borracha, bombas de gs e perseguidos pelas ruas da regio central at tarde da noite. Atacados seletivamente, vrios jornalistas acabaram feridos. Um deles, atingido no olho por um projtil emborrachado, corre o risco de perder a vista.

O retorno da Polcia Militar a sua face mais violenta ocorreu num dia que at prometia uma jornada de calmaria. Num esforo para evitar a confuso da quarta-feira 12, quando 97 nibus foram depredados, dezenas de vitrines foram quebradas e at um policial correu o risco de ser linchado, numa sucesso de atos condenveis promovidos por baderneiros mascarados, infiltrados entre os manifestantes, autoridades e ativistas fizeram um acordo para realizar uma passeata em percurso autorizado. J no incio da tarde, no entanto, se viu que nem todas as partes pretendiam cumprir o combinado.

PARIS, 1968 Havia confrontos e o desejo de mudar o mundo

SO PAULO, 11/06/2013, baderneiros se aproveitam de movimento para depredar patrimnio pblico e privado

SEM COMANDO - Policial lana gs de pimenta contra cinegrafista no centro de SP

Numa concentrao marcada para o Teatro Municipal, que pretendia arregimentar quem estava interessado em participar do protesto autorizado, a polcia dava uma demonstrao de desenvoltura excessiva ao realizar 40 prises para averiguaes, eufemismo clssico para atos abusivos .Quando fui perguntar por que dois conhecidos estavam sendo detidos, me advertiram: No faz muitas perguntas se no levamos voc tambm, conta o professor Lucas Oliveira, 28 anos, um dos porta-vozes do Movimento Passe Livre, entidade que cumpre, na luta por melhorias no transporte pblico, um papel semelhante ao que o MST assumiu na luta pela reforma agrria. Horas mais tarde, perseguido pela tropa de choque quando liderava uma passeata em outro ponto da cidade, Lucas Oliveira teve a canela ferida por uma bomba, sendo levado a um pronto-socorro.

Falta ao da polcia para reprimir o crime, mas sobra fora para repreender a populao de forma arbitrria

Apesar destes percalos, o acordo parecia de p. Tanto que a passeata autorizada realizou-se sem maiores atropelos, na rea demarcada. Mais tarde, quando a caminhada atingia a rua da Consolao, ocorreu um episdio que faz parte do figurino de todo ato de protesto que se preze. Depois de cumprir o combinado, tentou-se ir mais alm. No  uma demonstrao de cavalheirismo, nem de amor a palavra empenhada, mas faz parte do jogo tanto por parte de quem organiza protestos como de quem presta servios policiais. A fasca acendeu ali. A PM poderia ter assumido duas atitudes razoveis. Manter a avenida bloqueada, impedindo que a marcha seguisse em frente, nem que fosse preciso pedir reforos. Ou poderia, num ato de inslita cortesia, abrir passagem para os manifestantes. No se fez uma coisa nem outra. Quando lideranas do movimento tentavam negociar uma nova autorizao, soldados da Tropa de Choque comearam os disparar tiros com balas de borracha. Bombas e at granadas foram atiradas sobre os manifestantes, que se dispersaram em correria pela rua mais clebre da boemia de So Paulo, a Augusta, onde foram atacados mais uma vez. Num esforo repetido de concentrao e disperso, sempre com policiais em seu encalo, a passeata seguiu em grupos menores, at tarde da noite. Ainda em atividade, a polcia importunou casais de namorados em bares da avenida Paulista. Passageiros de um nibus foram atingidos por uma bomba de gs. Motoristas abandonaram os carros nas ruas, assustados. Num reflexo tpico de tempos autoritrios, a PM investiu com dureza seletiva sobre jornalistas presentes. A fotgrafa Giuliana Vallone, da Folha de S. Paulo, tomou um tiro de bala de borracha no olho. Outro fotgrafo tambm foi alvejado com maior periculosidade e na sexta-feira 14 corria o risco de perder uma vista.

...Enquanto isso, em Paris
Em meio  crise nas ruas, o prefeito paulistano Fernando Haddad, o vice-presidente Michel Temer e o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, encontravam-se em Paris na tera-feira 11 em solenidade

Com tamanha brutalidade, a atuao da Polcia Militar ameaa dar um novo carter  luta contra o reajuste da passagem. Mobilizao realizada em nome de uma reivindicao social legitima, que deve ser discutida de forma civilizada e a partir de argumentos racionais, a represso coloca em pauta o direito de cada cidado pela liberdade de defender seus interesses. Conflitos polticos que fogem dos padres da boa educao confundem o raciocnio e costumam ser avaliados mais pela coreografia do que pela substncia. A passagem de nibus teve um reajuste de 6,7% contra uma inflao de 15% desde o ltimo aumento, de janeiro de 2011. O reajuste pode parecer razovel no visor de uma calculadora, mas est longe de ser uma questo simples.

Num clculo do DIEESE, realizado em Porto Alegre, mas que tem semelhana com o que aconteceu no pas inteiro, as passagens subiram 670% de 1994 para c  contra uma inflao de 281%. Nesse ritmo, um cidado paulistano que anda de nibus duas vezes por dia e paga a passagem com dinheiro do prprio bolso deixa, na catraca, o equivalente a trs meses de salrio mnimo por ano.  uma boa quantia, mesmo quando se recorda benefcios recentes como o bilhete nico e o vale transporte, que transfere grande parte do custo das passagens de funcionrios de baixos salrios, com registro em carteira, para a empresa. O encarecimento dos transportes tem levado um nmero cada vez maior de pessoas a andar a p pelas grandes cidades. Falta-lhes dinheiro at para embarcar numa sardinha em lata nas horas de pico.

CAVALARIA INCONSEQUENTE - Na rua da Consolao, em So Paulo, polcia montada parte pra cima de manifestantes na quinta 13. Desta vez, no havia os tumultos provocados por minorias no dia anterior 

Embora os aumentos de passagem sejam alvo de descontentamento desde que os primeiros nibus passaram a circular no pas, ainda no sculo passado, no  uma surpresa que h pelo menos uma dcada os movimentos contra os reajustes tenham-se tornado um costume nacional, com altos e baixos em cada lugar. Em 2003, Salvador ficou paralisada por dez dias at que a prefeitura cedesse 9 das 10 reivindicaes apresentadas pelos lderes do movimento. Em Florianpolis, os protestos conseguiram revogar dois aumentos, em 2004 e 2005. Em Vitria, isso j aconteceu uma vez. Mirando-se no exemplo paulistano, que preferem ver longe de seus domnios, outros prefeitos resolveram agir antes que fosse tarde. Em Curitiba, o preo da passagem foi reduzido em dez centavos. Em Goinia, depois de subir para R$ 3,00 ela retornou para R$ 2,70. Em Manaus, houve um aumento de R$ 2,75 para R$ 3,00, mas o preo agora  R$ 2,90. Em Cabo Frio(RJ), a populao vale-se do subsdio da prefeitura e paga apenas R$ 0,50 pela passagem dentro do permetro do municpio. 

O cidado que anda de nibus duas vezes ao dia deixa na catraca trs salrios mnimos por ano. h razes para protestar

Nos ltimos anos, a sucesso de protestos levou ao surgimento, em vrios pontos do pas, do Movimento Passe Livre, uma federao de estudantes  muitos j se formaram desde ento  com ideias esquerdistas de vrias famlias, e uma prtica de quem rejeita toda submisso a partidos polticos. Em So Paulo, o MPL tem razes entre universitrios da USP e estudantes de estabelecimentos frequentados por uma elite cultural de esquerda, como Escola da Vila, Vera Cruz, Oswald e o Colgio Equipe, mas  o centro nervoso de uma articulao maior e mais popular, com conexo com sindicatos e entidades da periferia. Seus encontros renem militantes selecionados, funcionando de acordo com princpios de horizontalidade. No h hierarquia formalizada. Todos tm direito a usar a palavra pelo tempo desejado por cada um  e por essa razo alguns debates podem prolongar-se por at 12 horas. As deliberaes no so obtidas pelo voto, mas por um esforo permanente para se obter consenso. Praticantes de uma escola poltica que tem suas origens em movimentos radicais do sculo XIX, eles cultivam uma utopia urbana radical. Condenam o que chamam de  mercantilizao do transporte pblico e defendem a cobrana de tarifa zero  isto , o transporte gratuito. Este sistema que costuma funcionar em cidades menores, em especial na Europa e em alguns estados norte-americanos, tambm foi implantado em trs cidades brasileiras. So localidades pequenas, como Agudos, em So Paulo, Porto Real, no Rio, e Ivaipor, no Paran. A populao de todas elas, somadas, no chega a 100 000 habitantes. Quando era prefeita de So Paulo, Luiza Erudina chegou a elaborar uma proposta de tarifa zero, mas no levou o projeto adiante. Em pblico ou em conversas reservadas, os militantes do MPL condenam atos de vandalismo como uma espcie de contra senso, pois prejudicam aquilo que gostariam de preservar  que so estaes de metr, pontos de nibus e o espao pblico em geral. A gente no apoia nenhum tipo de depredao, seja de nibus ou de estao de metr, diz o universitrio Caio Martins Ferreira. Tentamos conter, mas  difcil. A gente no  dono de ningum para dizer quem deve fazer o que, diz.

Os episdios de vandalismo que acompanham os protestos envolvem pessoas de outra origem, que trafegam um universo no qual a violncia  um culto permanente, embora possa ser empregada de formas variadas. Ora pode ser um caminho para um acerto de contas entre turmas rivais, ora pode at apresentar um contedo poltico. So os chamados anarco-punks, um tipo de ativismo nascido nos bairros operrios que enfrentavam as medidas de austeridade de Margareth Tatcher nos anos 1980, e que se tornou moda no Brasil uma dcada depois. Em dias normais, o esporte predileto dos anarco-punks  trocar pauladas com os skin-heads, inimigos irredutveis e violentos. Em dias de mobilizao poltica, como aconteceu em So Paulo por esses dias, comandam o quebra-quebra.

Com outros nomes e rostos, mas um iderio parecido, eles j apareceram em outros lugares. Na quinta-feira, eles surgiram entre as mobilizaes em Porto Alegre. Picharam 21 lojas, depredaram seis agncias bancrias, reviraram 40 containers de lixo. Em situao semelhante, 2 mil pessoas organizaram um protesto no Rio, no mesmo dia. O incio foi pacfico, mas, no final, ocorreram cenas de baderna e confronto. H dois anos, anarco-punks fizeram sua apario  frente de uma sequncia de atos selvagens em Teresina, no Piau. Escondiam o rosto com capuz e se apresentavam como militantes de um certo Movimento Anti-Capitalista. A exemplo do que ocorreu em So Paulo, no surgiram nos primeiros dias das mobilizaes, mas naquela etapa em que o movimento j tinha fora prpria. J chegaram quebrando bancos e vitrines de loja, incendiando nibus. Consegui marcar uma conversa a ss com um deles, conta o senador Wellington Dias, ex-governador e principal liderana poltica do Estado Queria entender o que pretendiam.  outro mundo. Eles eram contra o sistema. Queriam quebrar tudo. So adversrios de toda autoridade, desprezam as leis. O simples fato de encontrar-se com um poltico, como eu, j era perigoso e condenvel.

RIO DE JANEIRO - Na capital carioca, ato na Candelria que comeou pacfico, terminou com violncia e depredao de prdios e monumentos histricos. Protestos no centro da cidade foram liderados por militantes do PSTU

PORTO ALEGRE - Na capital gacha, dezenas de manifestantes se concentraram em frente do prdio da prefeitura, que tinha a entrada isolada por cordas e vigiada pela Guarda Municipal, durante reivindicao contra o aumento da tarifa

A brecha que abriu espao para os protestos contra um aumento de 20 centavos nasceu de uma presuno poltica  a ideia de que o reajuste poderia ser visto como uma questo administrativa. Fernando Haddad, o prefeito de So Paulo do PT, e Geraldo Alckmin, o governador tucano, pretendiam anunciar o aumento em janeiro, mas, em funo de um pedido da presidente Dilma Rousseff, receosa de que a medida pudesse alimentar a inflao, decidiram adiar o reajuste por seis meses. O tempo permitiu uma negociao que parecia favorvel a todos. O governo federal desonerou o PIS e o COFINS das empresas de nibus. Com isso, foi possvel elevar a passagem para R$ 3,20 em vez de para R$ 3,40.

Tudo parecia acertado, mas faltou combinar com o principal interessado  o passageiro, que teria de colocar a mo no bolso e entrar com sua cota de sacrifcio. Embora o reajuste das passagens seja um pesadelo histrico na rotina dos prefeitos de grandes cidades, que nem sempre enfrentam protestos portentosos, mas nunca so capazes de evitar quedas abruptas em seus ndices de aprovao popular depois que o cidado comum sente o golpe, o reajuste foi encaminhado como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eles esqueceram que por trs de uma deciso tcnica sempre h uma questo poltica, afirma Lucas Oliveira.

Manifestaes chegam a vrios pontos do pas e ganham causas diversas, da sade  educao

No incio dos protestos, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad se encontravam em viagem em Paris, ao lado do vice-presidente Michel Temer. De l mesmo informaram que no pretendiam modificar o reajuste. Numa argumentao que repetiu ao voltar ao Brasil, Alckmin explicou que o caixa do governo no tinha recursos para subsidiar o preo baixo. Haddad lembrou que, na campanha eleitoral, assumira o compromisso de fazer reajustes abaixo da inflao  o que fez, efetivamente. Tanto o prefeito como governador tem argumentos. Mas as manifestaes expressaram outra realidade, mais exigente e inconformada  e so elas que aguardam respostas. Mas no as que a PM, com fora violenta e desproporcional, deu.

